Cristianismo, da origem até se tornar religião oficial do império,
Perseguições aos cristãos
Em roma após o surgimento da religião cristã, os seus adeptos foram perseguidos durante um período de aproximadamente de 300 anos, que envolve o período entre o século I (d.c) até o início do século IV (d.c). No inicio os punições contra os cristãos eram apenas por provocar desordens segundo a visão do imperador romano Cláudio (século I). Nesta época o cristianismo ainda estava restrito a uma pequena parcela da população, geralmente pessoas pobres e com baixa atenção da maioria da população. Neste período os cristão eram maus vistos pela sociedade em geral, pois a sua doutrina e religião era avessa a moral e religião romana, a começar pelo fato de que no cristianismo só é reconhecido a visão de um único deus, porém as tradições dos romanos no mesmo período seria o politeísmo, onde os romanos se inspiravam na sua multiplicidade de deuses para formar a sua moral. Nos ensinamentos cristãos eram glorificado aspectos espirituais e havia uma desvalorização dos aspectos matérias e carnais do ser humano, que são vinculados ao pecado. Na cosmovisão romana que adoravam deuses como Marte deus da guerra, ou Baco deus do vinho, dos excessos, das orgias, era totalmente estranha as concepções cristãs. Os cristãos também pregavam a não violência e a guerra, o que poderia ser um problema para o estado romano, pois se membros do exército se tornassem cristãos eles poderiam desobedecer as ordens diretas do imperador. Ao imperador também existia um problema principal, pois o monoteísmo cristão não o reconhecia como divindade, o que acarretaria automaticamente em perca de poderes sobre a população.
Entre os anos de 54-68 governou o imperador Nero, que até hoje ganhou fama de ser um dos imperadores mais cruéis contra os cristãos. Existem relatos de que Nero utilizou-se dos cristão como tocha humana, e que também os penalizava a participar de jogos da morte, onde os cristão eram colocados juntamente com os leões em arenas, que serviam como espetáculo publico. Estes espetáculos serviam não somente para a tentativa de destruição dos seguidores do cristianismo como também impor medo aos demais, para evitar que o cristianismo conseguissem novos membros. Em 64 o imperador acusou os cristãos de causar um incêndio na cidade de roma, o que causou uma violenta perseguição. Alguns historiadores argumentar que talvez tenha sido o próprio Nero o mandande do incêndio, pois ele desejava a cidade aos moldes das cidades gregas e gostaria de fazer uma reforma. Caso os cristão realmente não tenham queimado a cidade e Nero feito uma sabotagem, isso só foi possível pela rejeição do restante da população em relação aos cristãos.
Mesmo com a morte do imperador Nero, outros imperadores que o sucederam continuaram a sua perseguição aos cristãos, porém como não existiam leis especificas para julgar os cristão, cada imperador acabou por fazer um julgamento a sua maneira. O imperador Maximino usou de uma politica de desestruturação de uma ordem eclesiasticística que começara a se formar. O historiador romano da época nos deixou um relato preciso da situação: “ Ao promover uma perseguição, condena à morte apenas os chefes das igrejas, como responsáveis pela pregação conforme o evangelho” (Eusébio, H.E, VI, 28). Em seu contexto histórico Roma passava por um momento de crise, o império se arruinava aos poucos, quando as fronteiras foram ficando cada vez mais porosas e as invasões “bárbaras” intensificaram. A cidade em si também passava por crises, como a pobreza crescente, e revolta dos cidadãos. Neste contexto surgiu uma ideia de que Roma estava sendo minada por sua falta de crença dos deuses antigos, e culpavam justamente os cristão por isso. Houve uma politica de imposição aos cultos aos antigos deuses e aos imperadores, então foram ordenados que sacrifícios deveriam ser feitos em nome dos deuses antigos, e todos aqueles que se negavam a cumprir tais atos seriam punidos, muitos cristão foram castigados e mortos devido a estas imposições. Em 257 assumiu o imperador Valeriano que ficaria somente um ano no poder, pois seria morto pelos persas, influenciado pelo seu ministro de finanças “Macriano procurava atribuir aos cristãos a responsabilidade pelos embaraços decorrentes das incursões dos bárbaros, cuja ameaça às fronteiras era crescente. Além disso, como se avolumavam os problemas de tesouraria do império, propôs, para sair do impasse, que se procedesse a confiscações, com base em medidas de perseguição” (Nova Clio, a história e seus problemas, Judaísmo e Cristianismo Antigo. BOUTRUCHE, Robert. LEMERLE, Paul.) Com essa medida de confiscar os bens dos cristão, o império poderia se fortalecer materialmente, porém todas essas tentativas não foram capazes de acabar com o cristianismo que se provou muito resistente nas mentes de seus seguidores. Uma teoria para essa enorme resistência para suportar todas as perseguições e punições da população e dos imperadores romanos é a de que a religião cristã, encara o sofrimento como uma forma de purificação, pois o aproxima de seus deus Jesus Cristo que foi crucificado pelos próprios romanos.
Em 260 após a morte de Valeriano, Galieno declarou um tratado de tolerância a religião cristã que durou de 260 até 303, neste período de paz os cristãos cresceram muito de quantidade e saíram do eixo de mair pobreza da sociedade, mas também se expandiram para outros setores de maior poder politico inclusive, pessoas com cargos altos no governo, como por exemplo governadores de províncias, como também no próprio palácio do imperador e até em sua família. Porém em 303 foi instaurada o que seria a ultima perseguição, sob o governo de Diocleciano se iniciou “ a ultima perseguição geral, a mais longa e sangrenta de toda a antiguidade... Diocleciano procuraria reanimá-lo mediante uma renovação da antiga tradição religiosa em que o imperador assumiria posição quase divina. Tratava-se, em sumo, de implantar algo semelhante a um totalitarismo politico religioso.” (Nova Clio, a história e seus problemas, Judaísmo e Cristianismo Antigo. BOUTRUCHE, Robert. LEMERLE, Paul.)
Foi nesse período que Eusébio faz o relato: “Primeiro foram, relativamente a todos sem excepção, gritos, pancadas, prisões, confiscações, pedradas, numa palavra tudo aquilo que uma multidão furiosa habitualmente prodiga às suas vitimas. Tudo foi suportado com paciência. Os que tinham sido detidos foram conduzidos ao fórum pelo tribuno e pelos duúnviros da cidade e o interrogados diante do povo. Todos confessaram a sua fé e foram metidos na cadeia até o regresso do legado imperial. Chegado este, fê-los comparecer e mandou aplicar-lhes a tortura com extrema crueldade... os primeiros mártires, ardentes e preparados, confessaram a fé solenemente, com grande coragem, mas os que não estavam preparados nem exercitados, cujas forças não podiam suportar um ataque tão impetuoso, esses fraquejaram...”
(Carta da Igreja de Lião...às Igrejas da Ásia..., in Eusébio de Ceraréia, História da Igreja) (260-340 d.C)
Com este relato podemos entender o quanto violento foi esta ultima perseguição, porém esta tinha uma diferença essencial das demais, a parcela afligida da sociedade não era mais somente aquele pequeno grupo de cristãos pobres, marginalizados pela sociedade. E sim uma parcela maior, presente em diversos setores sociais e até nas camadas mais altas, elas já exerciam uma influência maior.
Cristianismo como religião oficial do império.
“Desde então, o império Romano e a Igreja foram duas flores do bem, desabrochadas como a um sinal de Deus”
(Eusébio de Cesaréia, Teofanias)
Com o cristianismo como a religião oficial do império, se formou uma igreja tradicional cristã. Porém com a liberdade conquista pelos cristãos no decorrer de todo o período das perseguições, e com a expansão da fé cristã por todo o império que envolvia uma grande proporção geográfica, os escritos dos apóstolos conhecido como evangelhos que contavam a vida de Jesus Cristo e seus feitos durante a sua peregrinação, até a sua condenação e morte, e após a sua ressurreição milagrosa, puderam ser interpretadas por diversas correntes filosóficas diferentes, algumas até provenientes dos povos “bárbaros” e assim se formaram doutrinas que mesclavam elementos do cristianismo com outras filosofias.
Um exemplo disso é a Gnose: “ o papel fundamental que atribuíram ao conhecimento, à gnose. Gnóstico era aquele que não se limitava a crer, considerando que a fé apanágio dos indivíduos de segunda categoria; ele fazia mais e melhor: conhecia. Seu conhecimento não provinha de um esforço de reflexão, e sim de uma revelação” (Nova Clio, a história e seus problemas, Judaísmo e Cristianismo Antigo. BOUTRUCHE, Robert. LEMERLE, Paul.)Porém o mito gnóstico evidência um dualismo e uma diferenciação ao Deus criador, presente no segundo testamente, e Jesus Cristo, o Deus salvador e bondoso. Então o primeiro Deus era considerado um demiurgo ou seja, um Deus que criou o mundo, porém este mesmo seria imperfeito, porém o segundo Deus esse Jesus Cristo que também teria se originado do demiurgo seria perfeito, então o Deus dos judeus seria um Deus imperfeito.
O Marcionismo também foi uma dessas interpretações já com bases autênticas cristãs o seu fundador Marcião se julgava cristão. “Marcião ficou vivamente impressionado pela posição entre Lei e O Evangelho, entre a Justiça e o Amor. Julgou discernir nessa oposição a chave do cristianismo... Assim, Marcião admitiu a existência de dois deuses . Observamos nessa concepção de um dualismo que se baseia não na oposição bem-mal, mas na oposição amor-justiça, Evangelho-Lei.” (Nova Clio, a história e seus problemas, Judaísmo e Cristianismo Antigo. BOUTRUCHE, Robert. LEMERLE, Paul.) Nesta concepção Marciniana o velho testamento era considerado um escrito ultrapassado, pois existiam alguns elementos que contradiziam a sua concepção, então Marcião se dedicou em um processo com a finalidade de constituir um Novo Testamento, então ele começou a retirar dos Evangelhos tudo aquilo que fosse contraditório para a sua ideia, e colocou em seu Novo Testamento os textos e passagens que sustentassem a sua concepção para o novo testamento. Por volta do século IV o Marcionismo entrou em declínio e se extinguiu.
Foi neste contexto também que surgiu a doutrina Montanista, diferentemente da gnose e o marcionismo não pretendia formar uma nova doutrina e sim reafirmas conceitos da doutrina tradicional como por exemplo a escatologia, era uma ideia de que o final dos tempos estava muito próximo de acontecer, e que a volta gloriosa de Jesus Cristo seria em um tempo menor do que uma geração. Outro conceito é o ascetismo, ou seja um processo de purificação da alma por meio de treinamento do corpo, que variavam entre jejum, xerofagia (abstenção de alimentos úmidos), exigência de castidade inclusive entre os casados, na condenação do segundo matrimônio e na recusa do perdão ao cristão batizado que pecara, mesmo que fizesse penitência. O profetismo também deveria ser exaltado, os profetas montanistas acreditavam possuir uma ligação divina, e tudo o que eles profetizassem fossem mensagens do próprio Deus.
Com todas essas interpretações ameaçando o cristianismo primitivo e a igreja tradicional, foram organizados concílios para se estabelecer uma regra geral entre as igrejas tradicionais, geralmente elas tinham que estar de acordo com a igreja de Roma. Esta uniformidade da interpretação divina seria útil para uma melhor estruturação da igreja em si, e para a defesa das já consideradas heresias. Utilizaram-se de teologias favoráveis para si, como por exemplo a de Tertuliano que foi de suma importância devido a sua influencia, no concílio de Nicéia em 325 e de Calcedônia, em 451 foi empregado pela primeira o conceito de trinitas persona onde era afirmado que Deus é indivisível portanto, Pai, Filho e Espirito Santo possuiriam a mesma substância, rechaçando de vez qualquer ideia de dietismo divino (dois deuses), este conceito também foi utilizado para afirmar o poder da igreja que seria como Deus, indivisa portando não haveria salvação fora da igreja. Acredito que para eliminar qualquer tentativa de concorrência com as heresias e as outras religiões, principalmente pagãs a igreja que já estava fortemente vinculada ao império proibiu os outros cultos como podemos observar no seguintes trecho:
“Em 391, o imperador Teodósio proíbe os cultos pagãos. Em 392, um edicto imperial determina: “Se alguém ousar fazer dessas oferendas que, embora de pouco valor, fazem... injuria à religião (cristã), esse indivíduo, como culpado de violar a religião, será despojado da sua casa ou da propriedade onde se verifique que ele praticou alguma superstição gentílica”
(Edito Imperial, 391)
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