quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Concepção e contexto histórico Salústio

Concepção de História de Salústio


Salústio considerava importante escrever história, pois com isso transmitiria os feitos de glórias dos antepassados para serem reconhecidos e admirados pelos homens do presente, servindo assim de exemplo a ser seguido de geração a geração. Esta então seria a utilidade básica da história na vida do homem, pois ele acreditava que o objetivo final da vida era buscar fama e glória que deveria ser conquistada com o auxilio da virtude, que seria o caminho coordenado pela alma e intelecto sobrepondo a natureza do corpo. Que teriam necessidades que o igualavam aos outros animais, então a virtude seria o diferencial do homem e do resto dos animais. Tudo aquilo construído a base da virtude e do intelecto seria superior e de maior importância para o ser humano. Com isso justificava e se defendia daqueles que não consideravam o seu trabalho como historiador útil a republica romana, isso fica claro nos trechos da sua obra¹ a seguir:


“... alguns darão a pecha de inércia ao trabalho tão importante e útil ao qual me dedico.”

“... o relato dos feitos passados fizesse crescer, no peito dos homens egrégios, esta chama que não se extinguiria senão ao igualarem a sua virtude à fama e glória daqueles.”

Para dar suporte aos preceitos morais difundidos por sua obra, Salústio utilizava-se da filosofia, onde tinha uma grande influência de Platão, neste sentido de que a alma e a razão deveria ser o carro guia do homem, onde o corpo poderia impedir de seguir este caminho e então deveria ser administrado pela razão.

O seu método de produzir conhecimento histórico não poderia ser apenas narrativo, ou seja produzir crônicas para registrar o passado. E sim o passado deveria sofrer uma análise, e a história deveria ser pensada, e contada a fim de comover o leitor, justamente para este alcançar a glória pela virtude.

Contexto histórico de Salústio

Salústio viveu no período próximo a decadência da republica de roma, as riquezas chegadas a Roma, provenientes das províncias saqueadas, fizeram com que a competição por posição de cargos públicos e posse deteriorasse a republica. Neste período a elite romana chamada de patrícios formaram uma oligarquia (governo de poucos) e faziam política somente para preservar seus interesses e privilégios, pois estavam muitos ligados ao mundo de luxuria que esta riqueza os permitia viver. Salústio acreditava que este apego ao mundo material e aos prazeres do corpo seria um perigo para a republica devido esse estilo de vida se tornar insustentável. Foi nesse contexto que escreveu a sua obra, tendo como finalidade inserir seus conceitos éticos com o auxilio da história, servindo assim como zelador da republica.

Salústio.

Indicação para leitura tese: 

A historiografia e a filosofia: os parágrafos introdutórios da obra de Salústio – Dicotomia entre corpo e alma. - Marlene Lessa Vergilio Borges






Salústio entre história e memória – Laura da Silveira

Concepção e contexto histórico Gregório de Tours

Contexto histórico de Gregório de Tours

      Com a vitória dos exércitos germânicos (visigodos) sobre os exércitos romanos, houve um período de invasões que resultou em uma fragmentação do império romano, surgindo assim diversos reinos. Esses novos povos eram pagãos (ou seja, não eram cristãos) e consigo trouxeram seus costumes tradições e crenças. A igreja neste contexto serviu para unificar os dois povos, pois ela negava alguns aspectos da romanidade, mas mantinham outros. Porém com essa assimilação, algumas crenças pagãs adentraram no cristianismo, (como por exemplo as superstições.) alguma dessas crenças seria o chamado arianismo:  O arianismo era oposto a ideia de que a Trindade ( Filho, Pai , Espírito Santo) possui-se a mesma substância ou seja Jesus Cristo, então seria uma criatura de Deus e não o próprio Deus, isto o igualava a um semideus grego por exemplo, mas o tirava a condição de Deus absoluto.
       Isto ameaçava o poder hierárquico do clero, pois o que legitimava esta hierarquia era o texto bíblico que dizia que Jesus Cristo, havia dado autoridade aos apóstolos para (expelir demônios, curar, e difundir a sua doutrina) e esta autoridade passada assim para os Bispos. Negando Jesus como Deus absoluto, o arianismo então poderia renegar este poder divino do clero. Devido a isto o Arianismo era considerado heresia, e Gregório de Tours fazia duras criticas aos hereges “Quanto aqueles que dizem – Foi um tempo onde não existia ainda – eu os renego com execração e declaro que eles estão excluídos da igreja.”

Método

Aprendeu como estruturar formalmente o conteúdo do material historiográfico, com Eusébio que foi uma grande influência, o Gregório adquiriu a ideia de que existia um motor guia na história, algo que controlasse o destino dos impérios e as mudanças naturais, o motor guia seria então Deus. E para escrever a história dos Francos ele adotou este principio: De que a história politica e religiosa deveria ser contada sem distinção (como se elas fossem a mesma coisa) ( Como se o mundo e o sagrado estivessem interligados, interagindo entre si) (exemplo – acontecia um desastre natural era culpa de heresia de alguém)
“ Perseguindo o transcurso dos tempos, registraremos sem ordem e sem distinção tanto os milagres dos santos quanto os desastres dos povos. Com efeito, penso que deva ser considerado razoável nosso esforço em recontar a vida bem aventurada dos santos entre as dores dos desafortunados pois não é a comodidade do escritor, mas a sequência dos tempos que assim se exige” E devido ele acreditar que o destino sofresse interferência direta do sagrado, Gregório também acreditava que podia prever que o final dos tempos estava próximo, pois ele acreditava muito na figura do anti cristo que no texto bíblico surgiria próximo do final dos tempos., e no imaginário dele, ele criava diversos anti cristo, um exemplo: Aqui ele denunciava um camponês que a população atribuía o dom da cura e da adivinhação:

“ Por todas as Gálias surgiram muitas pessoas executando os mesmo prodígios, com os quais seduziam as pobres mulheres que, sem seu delírio, os proclamavam santos, considerando-os acima das pessoas comuns”

“Aquele do qual procede esta sorte de coisas, autor de todos os males, deve, no fim do mundo, se fazer passar por Cristo”
Uma característica do Gregório é a sua má gramática, as suas deficiências no latim, dificultou a clareza e os entendimentos das frases. Também possuía um certo anacronismo, ele não se preocupava em dar saltos no tempo para ressaltar aquilo que o interessasse no momento.

“ Malgrado esses livros terem sido escritos nun estilo inculto, conjuro todos os padres do Senhor que, após mim, indigno, governem a igreja de Tours. Eu os conjuro, pela vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, e pelo dia do terrível julgamento a todos os culpados: se não quiserem, no dia desse julgamento, vos verdes confundidos e condenados junto com o diabo, jamais destruam esses livros, nem permitam que sejam reescritos ditando certas partes e omitindo outras, mas os conserveis em sua integridade e sem alteração tais quais os deixamos”
Concepção de História

As obras de Gregório tem uma intenção de sacralizar o tempo, como ele mesclava a história dos homens com o sagrado, assim ele acabava afirmando a instituição da igreja, legitimando assim uma integridade espiritual e cultural. Isso também acabava com concepções partilhadas pela nova população que seriam os pagãos e assim ajudando em uma conversão maior para o Cristianismo.


Dicas de leitura:

Artigo da Revista do programa de pós-graduação em história, UFRGS, n° 12, 1999

Tempo, providência e apocalipse na História Francorum, de Gregório de Tours - José Rivair Macedo.

Caso precise e não encontre, entre em contato comigo que eu faço um escaner e disponibilizo por download .

Os Bárbaros


Os Bárbaros

A concepção de povos bárbaros é de origem grega, na Grécia antiga era denominado bárbaro todos aqueles povos que não falavam o idioma grego. Esta concepção foi adotada pelos romanos, para denominar todos aqueles povos estabelecidos fora de suas fronteiras, essa denominação era dada tanto para povos da Ásia, como o exemplo dos Pérsias que tinham uma sociedade organizada e cultura própria, como também para povos com um grau de organização menor como por exemplo, povos da África, ou seja os povos considerados bárbaros pelos romanos eram todos aqueles que não possuíam a sua cultura, língua, tradições e religiões, ou seja todos aqueles que não eram romanos. Podermos analisar esta conceituação romana no seguinte trecho:

“Possa Jesus afastar estas bestas ferozes do Império Romano. Surgem onde menos são esperados, graças a sua rapidez antecipam-se a qualquer notícia; a religião nada vale para eles...”

(S. Jerônimo, Epístolas. LXXVII, 8; LX, 16.)

No trecho o autor descreve o desprezo e repudio pelo povo que ele denomina de bárbaro, menosprezando também as suas crenças pois afirma que “a religião nada vale para eles” e que “ Jesus afastar estas bestas ferozes do Império Romano” reconhecendo assim o seu Deus como única divindade válida. Neste pequeno trecho o autor também nos da uma pista sobre o atual contexto histórico em que se escreveu o relato, ele cita “graças a sua rapidez antecipam-se a qualquer notícia” neste trecho podemos analisar o contexto de migração desses povos.


O que é conhecido hoje como invasão bárbara foi o processo caracterizado pela movimentação desses povos pelas fronteiras do império romano, já no período do baixo império romano entre o século III e V depois de cristo, Roma passava por uma crise devido a sua descontinuidade da expansão o que acarretou na falta de escravos. A mão de obra escrava era o pilar principal da produtividade romana, com a interrupção roma passou por um declínio em todos os seus aspectos, assim não conseguiam mais defender as suas fronteiras de ataques das diversas tribos germânicas que circundavam o seu território.


“Poucos de nós sobrevivem, o que não é devido aos nossos méritos, mas à misericórdia de Deus. Povos inúmeros e mui ferozes ocuparam o conjunto das Gálias. Toda a região que se estende entre os Alpes e os Pirineus, entre o Oceano e o Reno, foi devastada pelo quando, pelo vândalo, sármata, alano, gépida, hérulo, saxão, burgúndio, alamano, ó infelicidade para o Estado, os próprios panônios tornaram-se inimigos; pois “também Assur veio com eles”. (ps,82,9). Mogúncia, cidade ilustre, foi tomada e saqueada; em sua igreja milhares foram massacrados; Worms foi submetida depois de um longo cerco; a tão poderosa cidade de Reims, de Arras, de Amiens, os “morinos, os homens mais afastados do mundo”, Tournai, Spira e Estrasburgo foram completamente devastadas. As cidades poupadas serão despovoadas pela espada ou pela fome. Eu não posso evitar de chorar ao mencionar Toulouse, cuja ruína só foi impedida pelo mérito de deu bispo Exupério. As Espanhas, que já vêem chegando a hora da sua morte, tremem a cada dia e relembram a invasão dos címbrios. Aquilo que outros sofrem uma vez, elas pela apreensão sofrem continuadamente. Eu deixo de mencionar o resto para não parecer desesperar da clemência divina.”


(in: Carta CXXIII de São Jerônimo à Geruchia. Ed. Eabourt, 1961, pp. 91-92.)


Neste trecho podemos ver a multiplicidade dos povos e tribos consideradas bárbaras, o autor descreve ataques e pilhamentos organizados por bárbaros as cidades romanas, esses que causaram muita dor e destruição aumentando assim o seu desprezo romano por essas tribos.

Germania

Hoje é possível avançar nos estudos sobre os povos “bárbaros” devido a uma obra de Tácito intitulada de Germania. Nesta obra Tácito aborda diversos aspecto das civilizações Germânicas. No aspecto social “os germanos desconheciam Estado e cidade. Sua vida social estava centrada na comunidade, na tribo, no clã, emfim, na família, em que o indivíduo encontrava sua razão de ser. Dentro da família, o pai exercia autoridade absoluta sobre esposa e filhos: a infidelidade feminina era castigada com a morte e repúdio, já que a mulher era a guardiã da pureza.” Diz a professora Maria Sonsoles Guerras em seu livro – Os povos Bárbaros. No aspecto politico existia uma hierarquia organizada em clãs, que eram grupos guerreiros chefiados por um líder que conseguia esse status no decorrer de sua vida. “O caráter militar é o traço mais típico da sociedade germânica. A guerra era a razão de ser do germano, que devia sempre estar preparado para o ataque.... Uma das principais atividades dos germanos estava ligada à guerra: a metalurgia das armas, arte na qual eram insuperáveis. Os objetivos fundamentais eram de ordem militar, e as únicas subdivisões sólidas encontravam-se no exército. A base da hierarquia social caracterizava-se por uma instituição essencialmente guerreira, o séquito (cominatus), formado pelos chefes que congregavam grupos de jovens guerreiros que haviam prestado juramento e cuja fidelidade tinha sido provada. O mando estava nas mãos de chefes hereditários ou dos ricos que se achavam à cabeça de um importante comitatus. A sobrevivência das confederações, sobretudo as maiores, dependia do sucesso que obtinham. Repetidos fracassos acarretavam a dissolução e o desaparecimento de seu nome.” (Os povos Bárbaros). Sua economia era baseada na agricultura e pecuária, juntamente com pesca e caça e no comércio. Eram assim que conseguiam os recursos para fazer suas cerâmicas, roupas e a sua gloriosa metalurgia. A religião dos povos germânicos era muito ligada a natureza, o politeísmo estava presente ligada a diversas divindade como por exemplo, Odin, Thor, Nerthus, Freya dentre outros. Acreditavam em vida após a morte, descreviam que na pós vida os espíritos iriam para lugar como Walhalla que seria um lugar agradável onde somente os bons guerreiros mereceriam ir, e Hel que seria um lugar desagradável destinado aos elementos ruins dessa cultura.

Hunos

Os Hunos foram para os romanos o maior exemplo de “barbárie” pois o seu costume era muito diferente até mesmo comparado com outras tribos germânicas. Em Os povos Barbáros a autora diz:


“ Pertencentes à raça mongólica, formavam tribos nômades, cujas atividades principais eram a caça, o pastoreiro e a rapinagem. Era um povo guerreiro por excelência e sua força estava na cavalaria. As descrições dos hunos sobretudo a do contemporâneo Amiano Marcelino, não lhe eram favoráveis. Sua maneira de viver, diametralmente oposta à dos romanos, chocou o império.”

Podemos confirmar isso nas fontes:

“... o povo dos Hunos, pouco conhecido pelos antigos monumentos, vivendo por trás da lagoa Meótis, perto do Oceano Glacial, excede todos os modos de ferocidade... Tendo porém o aspecto de homens, embora desagradáveis, são rudes no seu modo de vida, de tal maneira que não têm necessidade nem de fogo nem de comida saborosa; comem as raízes das plantas selvagens e a carne semi crua de qualquer espécie animal que colocam entre suas coxas e os dorsos dos cavalos para as aquecer um pouco...”

(Amiano Marcelino, citado in ESPINOSA, F., Antologia de Textos Medievais.)

Aqui percebemos o repudio dos romanos aos costumes hunos, como por exemplo a falta de uma culinária especifica que necessita o preparo e cozimentos dos alimentos, criticando também o aspecto de caça e colheita, que no trecho seguinte ele irá citar a falta de um trabalho de agricultura, evidenciando assim os costumes nômades dessa tribo.

“Ninguém entre eles lavra a terra ou toca num arado. Todos vivem sem lugar fixo, sem lar nem lei ou uma forma de vida estabilizada, parecendo sempre fugitivos nos carros onde habitam; aí as mulheres lhes tecem as horríveis vestimentas, aí elas coabitam com seus maridos, dão à luz aos filhos e criam as crianças até a puberdade. Nenhum deles se for interrogado poderá dizer de onde é natural, porque, concebido num lugar, nasceu já noutro ponto e foi educado ainda mais longe.”
(Amiano Marcelino, citado in ESPINOSA, F., Antologia de Textos Medievais.)

Com a crise do império roma começou a sofrer um processo de aumento de miséria e crise politica, abrindo caminho assim para uma porosidade das fronteiras, que eram asseguradas pelas limes que já envolviam um certo contato e aceitação do império romano com os povos germânicos das fronteiras. Mas com o aumento da crise se permitiu uma expansão maior dos “bárbaros” então houve ao mesmo tempo uma romanização dos “bárbaros”, houve uma assimilação entre as culturas, neste período os povos bárbaros foram restruturados. E com a crise cada vez mais critica do império houve aqueles que preferiam ir viver ao lado os bárbaros para não sofrerem com a crise que resultaria no declínio do império romano. No trecho a seguir podemos constatar tudo isso:

“Os pobre são despojados de seus bens, as viúvas gemem, os órfãos são oprimidos a ponto de vários deles, descendentes de famílias honestas e moldados por uma feliz educação, se refugiarem entre os inimigos para não mais serem vitimas destas perseguições públicas; eles vão procurar certamente entre os bárbaros a humanidade dos romanos, porque não podem mais suportar entre os romanos a desumanização bárbara. E ainda que não se pareçam com os povos entre os quais se refugiam, ainda que não possuam maneiras e suas línguas e tampouco o odor fétido dos corpos e das vestimentas bárbaras, eles preferem mais se submeter a esta diferença de costumes ao invés de suportar entre os romanos a injustiça e a crueldade. Portanto eles emigram entre os godos ou os bagaudios ou entre os outros bárbaros que dominam em toda a parte, e em nada se arrependem desse exílio. Pois eles preferem viver livres sob aparência de escravidão do que serem escravos sob uma aparência de liberdade.”

(Salviano, De gubernatine Dei, V-5, ed. Pauly, trad. Tereza Aline Queiroz)